Caridade não faz mal a ninguém

Uma de minhas 101 metas a serem cumpridas em 1001 dias era a de visitar uma creche carente. Envergonhado por ter cumprido 25% das metas e não ter feito caridade alguma, deixei a preguiça de lado e, acompanhado de minha namorada, arrecadei no armário e com a família alguns brinquedos e roupas que não utilizava mais, e tocamos para o abrigo.

Chegando lá, a primeira impressão foi boa. Um lugar amplo, ocupando dois terrenos, um para as instalações e outro com um campo de futebol, onde algumas crianças disputavam uma partida. Munidos de sacolas e mais sacolas, enchemos os olhos dos coordenadores, que ficaram encarregados de fazer a triagem e distribuir os donativos às crianças.

No salão principal algumas crianças já nos aguardavam. Uns mais soltos, outros um tanto tímidos, mas que aos poucos foram se soltando, especialmente com a notícia de que trazíamos balas, o que arrancou sorrisos de todos. De mansinho chegou um pequenino, acordado pela algazarra. Veio trazendo seus tênis, com uma carinha de sono. Me abaixei para ajudá-lo a pôr os sapatos e ele, sem vergonha alguma, veio a me estender seu pézinho para ajudá-lo.

Fomos ao pátio, e lá brincamos por cerca de uma hora. Quase fiquei descadeirado de tanto dar garupa aos pequeninos — creio que nunca viram alguém tão alto na vida, pelo menos não alguém que estivesse disposto a levantá-los ao alto uma dezena vezes. A cada brincadeira, a confiança e a alegria eram conquistadas, e mesmo neste curto espaço de tempo, já conhecíamos o nome de cada um e criávamos um grande laço carinho.

Impressionante a carência de uma das meninas do grupo. Vítima de violência doméstica, chegou ao abrigo toda cheia das marcas que sua mãe lhe infligira. Ao ver-nos, chegou quietinha, desconfiada. Mas com o passar do tempo, revelou-se a mais carente. Queria fazer tudo, queria conversar, brincar, pular, correr. Eu, eu, eu! A outra, uma morena com sardinhas na cara. A coisa mais amada, comendo uma maçã. Um outro pequenino se entretia levantando uma enorme pá de areia até um carrinho-de-mão.

Tristeza é sair de um lugar como esse, e ter crianças agarradas aos seus braços dizendo “me leva!, eu vou com você!”. Tristeza maior é refletir o que isso significa, em pensar que um ser que lhe viu uma vez só na vida, quer deixar tudo para ficar com você, pelo simples fato de ter-lhe dedicado um pouco de carinho e atenção. Resta-nos, apenas, torcer por um melhor futuro a estas crianças maravilhosas, e continuar ajudando para que não mais queiram fugir de suas vidas, mas queiram vivê-la como nunca viveram.

Minha intenção agora é riscar outro item da lista. Doar sangue o visitar um asilo, embora sugestões estejam sempre abertas. Voluntários?

Comentários »

  1. Foi uma grande experiência termos conhecido o Vitinho, a Caroline, a Lavínia,o Lucas… Crianças lindas e cheias de vida..
    Se mais alguém pensa em fazer um programa desses, digo que vale muito a pena! Mas não vejam como uma caridade. Quem mais ganha, na verdade, é quem o faz! Ver os sorrisos naqueles rostinhos, como vimos, não tem preço!
    Ah… Pedro! Tu sabe que eu sou parceira pra as outras duas atividades.. ;)
    Temos mtá coisa pela frente!

    Valeu! \O/

    Comentário de taty — 09.10.2006 às 18:39

  2. se te tocou tanto esse ato… pq vc nao “apadrinha” uma das criancas ou se empenha em conseguir um grupinho para visitá-las mas frequentemente.
    É uma sugestão pois qnd li percebi claramente o quanto isso te tocou e o quanto esta disposto a fazer mais por esses pequenos anjos!
    Bj

    Comentário de Lili — 09.10.2006 às 21:04

  3. Poxa… assim a minha consiência pesa… eu quero fazer algo assim… mas eu não consigo arranjar tempo… e tem mais o desânimo da minha vida desandando… tá complicado… realmente… isso poderia até me ajudar… me dando mais motivação… mas eu sou muito lerda pra fazer qualquer coisa por conta…
    Doar sangue eu não posso (tenho menos de 50kg). Mas se vocês forem num asilo, eu posso acompanhá-los :) só dizer quando…
    bjs

    Comentário de yakuza — 10.10.2006 às 19:18

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